Luiz Henrique Gomes
Repórter
Gravando vídeos numa perspectiva de primeira pessoa, graças a uma câmera GoPro alocada em um boné, Maykel Martins, 44 anos, apresenta a cerca de 30 mil inscritos no seu canal do YouTube as caçadas que realiza em busca de joias perdidas, principalmente de ouro, nas praias de Natal. Acompanhado de um detector de metais e uma pá com pequenos furos, o potiguar pratica o hobby conhecido como detectorismo e mostra que não é raro encontrar anéis, pingentes e outros tipos de objetos (como moedas) na areia ou no mar.
 

Maykel vasculha as areias de Ponta Negra atrás de metais perdidos

Maykel vasculha as areias de Ponta Negra atrás de metais perdidos
 
Adepto do bigode e com tatuagens espalhadas pelo corpo, Maykel lembra um marujo. De certa forma, o é: um marujo à beira-mar. A relação com o mar o acompanha desde a adolescência, quando começou a praticar atividades como pesca, surfe e mergulho. Há 20 anos acompanha o detectorismo pela televisão, mas somente há cinco se tornou, de fato, um detectorista. Proprietário de uma pousada localizada em Ponta Negra junto com a esposa, a ideia de comprar um equipamento surgiu quando começou a ouvir relatos de hóspedes que perdiam objetos na praia.

A curiosidade é comum entre os que cruzam com Maykel na praia com o olhar concentrado no solo enquanto vasculha a areia com um equipamento pouco conhecido nas mãos. Os mais intrigados costumam perguntar o que ele está fazendo ali. Ao ouvir a resposta, alguns são céticos de que é possível encontrar alguma coisa, principalmente ouro, na praia. Mas o detectorista mostra que até celulares são possíveis de encontrar. Numa dessas ocasiões, registrou no seu canal o achado de um iPhone 7 enterrado em Ponta Negra.

“Os objetos que eu mais encontro são moedas antigas, anéis, pingentes, correntes. Mas já encontrei celular, facas, projéteis de armas. A gente acha de tudo. Acha muita coisa que não serve também, como tampa de latinhas. Dessa forma, o detectorista presta também um serviço de limpeza à praia. Já o que eu acho de valor fico por um mês, até ver se alguém reconhece no meu canal, e depois vendo para o ourives”, conta Maykel.

A atividade também tem um pé na arqueologia. Entre as moedas que já encontrou em Ponta Negra, algumas são datadas do início da república (1889) e do Brasil Império (1822–1889). Em Pirangi do Sul, “descobriu” uma rota que serviu para a exploração do Pau Brasil pelos portugueses ao mergulhar com o detector de metal e encontrar moedas coloniais. A mais antiga que encontrou data do ano de 1730. Todas foram entregues ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Depois que eu comecei a mergulhar na área e a achar moedas antigas eu comecei a me interessar pela história e pesquisar sobre a área. Aí eu descobri uma reportagem da TV Câmara que falava sobre essa rota. Provavelmente, na hora do transporte algumas moedas caíam do bolso ou dos caixotes dos portugueses e ficam até hoje perdidas na praia”, explica.

A semelhança com um marujo não se encerra na aparência física.  Maykon demonstra conhecimento sobre o mar, como movimento  de marés, correntes e profundidades. O conhecimento é resultado de anos em contato com a praia e da dedicação ao hobby, explicitada na compra dos melhores equipamentos e no registro como mergulhador profissional – para poder ir atrás de ouro em qualquer lugar do mundo.

O conhecimento é repassado nos vídeos do seu canal no YouTube, chamado Mergulho e Detectorismo. Criado há um ano, foi a forma encontrada por Maykel de contar histórias a um público curioso, como ele foi durante 15 anos em que passou assistindo programas de caçadores de tesouro em canais de aventura. Para manter o entretenimento, o potiguar comenta as buscas com uma pegada levemente humorística, dá detalhes dos objetos encontrados e não exclui momentos inusitados. O canal faz relativo sucesso, alcançando a marca de 400 mil visualizações em alguns vídeos.

“O detectorismo é uma forma de contar histórias, incentivar a imaginação. Eu encontro uma moeda do Brasil Colônia e a gente fica imaginando quem foi que perdeu, como perdeu, o que estava fazendo ali. Encontro uma aliança, com uma data, um nome inscrito, e tem toda história de um casal ali. Houve um caso em que coloquei a aliança no meu canal e uma pessoa reconheceu e provou que era dela”, diz.

Em Ponta Negra, praia onde mais pratica o hobby, Maykel incentivou outras pessoas. Cerca de dez pessoas praticam o detectorismo, alguns com mais e outros com menos frequência. “Comecei a ver os vídeos e a me interessar. Maykel me influenciou tanto que eu vou fazer uma viagem a Bahia daqui a alguns dias e desisti de avião para ir de carro e ir parando nas praias para procurar alguns metais”, relata Daniel Dumas, detectorista há três meses.

A próxima empreitada do potiguar é ir a Praia do Marco, em São Miguel do Gostoso, para verificar no mar se há objetos perdidos que provem que o Brasil foi descoberto no Rio Grande do Norte, e não na Bahia – como propõem alguns historiadores pela existência de um marco fincado em 1501 pelos portugueses e maior proximidade da praia com Cabo Verde, ponto de partida das esquadras portuguesas. Não deve demorar muito para os resultados da aventura serem postadas em seu canal.
 
O que
A TRIBUNA DO NORTE inicia uma série de reportagens para contar a vida de pessoas que, de algum modo, estão ligados à praia – sejam trabalhadores, moradores, turistas que utilizam a praia como lazer, atletas, pesquisadores. A cada reportagem, uma história vai ser relatada. As publicações serão nas edições de terça, quinta e sábado.
 
Fonte: Tribuna do Norte