Foto: Magnus Nascimento

Fonte: Tribuna do Norte

O Beco da Lama está na moda – mas não é de hoje que ele é um point de boemia e agitos mil. O Beco tem história e ela sempre esteve ligada à diversão e ao encontro. No momento em que esse trecho da Cidade Alta revive com novos grafites e sons, antigas e novas gerações estão se encontrando para conhece-lo melhor. Uma nova clientela surge para apreciar os petiscos e bebidas dos velhos botecos da região, enquanto o público mais tradicional se    diverte entre os modernos sambas, saraus e pistas de música eletrônica. Há um cantinho do Beco para cada boêmio.

Mais Samba
O samba trouxe o primeiro repique de revitalização para o Beco da Lama, e acabou de ganhar mais um terreiro: neste sábado estreia o projeto “Hoje Tem Samba no Beco”, no cruzamento entre as ruas Coronel Cascudo e Vaz Gondim, das 14 às 17h. A banda que tocará tem o mesmo nome do projeto, e é composta por Maurício Souto, Ivando Monte, Fernandinho Régis, Luan Medeiros, Renan Araújo, Robertinho Araújo, Carlos Zens e Marcos Souto. O cantor Isaque Galvão será a voz convidada da primeira edição. Todo sábado haverá um convidado local diferente.

O produtor cultural e compositor Rick Ricardo, idealizador do projeto, afirma que o momento atual do Beco foi o pontapé que o levou a voltar aos sambas. “Eu já havia cuidado da Quinta Viva do Samba durante seis anos, na Praça Vermelha, e estava fora do circuito porque não havia mais clima. O Beco da Lama estava caído, não parecia um lugar bacana pra tocar. Até que essa revitalização encheu a gente de estímulo para voltar”, afirma. Ele ressalta que o “Hoje Tem Samba” também visa os próprios trabalhadores do centro que ainda não tiveram tempo ou interesse em conhecer o Beco. “A gente quer que a galera saía do trabalho, escute a música, veja os grafites, fique e se divirta”, diz.

Pistas do fim de semana

A chegada da música eletrônica ao Beco da Lama foi uma das surpresas do ano. A pista  criada ao lado do Bar da Meladinha não para de se mexer. Nesta sexta-feira terá uma edição especial do “SounDJ”, que normalmente acontece às quintas. Desta vez o encontro clubber estará em conexão com a festa House Nation (dia 23, no Galpão 29) e terá discotecagens de GLDNO, Xarvs, Raquel Pires, Mano Dom, e Not Found x Dnir. No sábado, será a vez do projeto mensal “Sabadaço do Synthpop”, uma ode aos sons eletrônicos dos anos 80 e seus derivados, do pop ao under. A trilha ficará por conta de Galaxxxy e T. Yuri, a partir das 17h.
Aleixo diz que festas no Beco suprem falta de opções nas casas noturnas da cidade
Aleixo diz que festas no Beco suprem falta de opções nas casas noturnas da cidade. Foto: Magnus Nascimento.

O produtor cultural e DJ Frank Aleixo conta que as festas no Beco começaram por acaso, de forma despretensiosa, como uma reação à falta de opções nas casas noturnas da cidade. “A Ribeira estava bombando, mas deixando a cena alternativa de lado. Então vim para o Beco porque queria um lugar diferente pra curtir. Aí conhecemos Neide, do Bar da Meladinha, e foi a partir desse contato que a coisa toda mudou. Aproveitei meu aniversário pra fazer uma festa no bar, e foi muito bom. A gente se inspirou nos movimentos que acontecem em São Paulo, de reocupação das ruas”, relatou.

Frank também cuida das festas Houssaca, que rolam ocasionalmente na Ribeira. No domingo de carnaval deste ano, lançou a festa/bloco eletrônico “Acorda, clubber!”, também no Beco da Lama, com boa repercussão. Terá mais no ano que vem.

De bar em bar 

Os bares são a alma do Beco. Eles estão por lá há décadas, e usufruindo do novo momento do local. Francisco de Assis comanda o Bar do Chico há 42 anos e está bastante animado com a atual fase do local. “Estava achando o Beco meio morto, mas de um ano pra cá as coisas melhoraram muito. Tenho clientela assídua, mas tem aparecido uma rapaziada mais nova, um pessoal ‘de fora’, isso é ótimo”, diz. Ele conta no dia-a-dia o pessoal vem mais pra beber, mas é no fim de semana que a cozinha se agita mais. “O pessoal adora os caldos de ova ou carne, além da fava e da carne de sol. Uma cachaça de litro com um caldinho especial é bom demais”, diz.

Com sua comida tradicional, os bares são o tempero do Beco da Lama

Com sua comida tradicional, os bares são o tempero do Beco da Lama. Foto: Magnus Nascimento.

Outro quarentão na área, o bar Encontro dos Boêmios também está feliz com os novos agitos. “A frequencia aumentou substancialmente. A partir das quintas o fluxo é grande”, diz o proprietário José Lourenço Sobrinho. Ele destaca a seresta que está rolando todas as sextas, a partir das 16h. “É pra agradar a velha guarda, já que o nosso público é o mais maduro, a partir dos 50”, explica. Lourenço também destaca o cardápio do bar. A casa já ganhou o 1º lugar no Pratodomundo, o Festival Gastronômico do Beco da Lama. A iguaria foi a bisteca suína ao molho de engenho. Mas tem mais: galinha torrada, dobradinha, frango à passarinho, entre outros.

Selma Silvestre, do Beko’s Bar, há 11 anos na área, conta que os bares se beneficiam dos dias de beco lotado com festa. “As pessoas vão para os bares quando está muito cheio. As sextas e sábados são os melhores dias”, diz. Ela também ressalta a permissão para pôr as mesas nas calçadas, o que muita gente curte. E para comer? Selma destaca algumas iguarias como o pirão de costela, o carro-chefe da casa, a fava, e a maxixada, um caldo de maxixe feito no leite de coco. Alô, veganos!

A Sociedade dos Amigos e Amigas do Beco da Lama e Adjacências – SAMBA -, é a entidade que cuida da movimentação cultural da área, e acredita que muitos fatores estão ajudando o Beco a se renovar. “A internet é importantíssima nesse processo, pois deixa o Beco mais visível e facilita a circulação de informações. Além das iniciativas que harmonizam com nossa proposta”, afirma Maria Gorete Barbosa, atual presidente da associação.

Francisco de Assis, do Bar do Chico, está no local há 42 anos e aprova a renovação

Francisco de Assis, do Bar do Chico, está no local há 42 anos e aprova a renovação. Foto: Magnus Nascimento.

Ela afirma que o incremento atual é fruto de muitas ações já acontecidas no passado, pois o Beco tem um histórico de ter recebido muitos artistas de música, teatro e cinema ao longo das décadas.  Gorete ressalta que o momento é bom, mas que ainda falta muita coisa. “Estamos iniciando um processo de revitalização, mas ainda carecemos de muita coisa. Há muito preconceito e desinformação sobre o Beco, e podemos mudar isso com o que está acontecendo agora”, diz. Ela adianta que em junho haverá uma ação com a comunidade de artistas globais Urban Sketchers, que desenham paisagens urbanas ao redor do mundo. Vem aí mais traços novos para o Beco.